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QUEM É ESSA GAROTA?

15/04/20 Moda | Por Nelize Dezzen

Gabriela Prioli causou ao estrear na bancada de um programa de debate ao vivo. E, quer saber? A gente nunca esperou nada diferente dela

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Desde outubro do ano passado a loira alta de olhos azuis abre os posts da semana no Instagram do GE. A cada segunda, de uma forma calma e didática, ela ajuda a abrir nossos olhares e pensamentos para os acontecimentos da semana. Essa mulher “perfeita”, dentro dos padrões que ainda são tidos por aí como ideal é bem mais que um rostinho bonito: é inteligente e exerce um magnetismo em quem a ouve a cada fala. Prende a atenção de quem estiver à sua frente e transforma política em um assunto acessível a qualquer pessoa. Aqui na redação, a chefa Camila Coutinho costuma dizer que ela é a nossa versão de Reese Witherspoon no filme Legalmente Loira.

Gabriela, em um encontro de amigas, sempre tem a atenção de todas. Gabi precisa falar. E, ela tem muito o que falar! Mas, em momento algum aparenta superioridade. Apesar do loooongo currículo, não é dessas pessoas que deixa as pessoas constrangidas com os seus conhecimentos. Pelo contrário, faz da sua inteligência um fio condutor, passando à frente sempre tudo o que aprende.

Não por acaso, ganhou espaço na TV fácil fácil: cheia de personalidade e caras e bocas, que a fizeram ser amada e odiada, Gabi se destacou em um lugar predominantemente masculino até então, a bancada de um programa sobre debate político, O Grande Debate, da CNN Brasil. Por causa disso, em pouquíssimo tempo, seus 100 mil seguidores viraram quase um milhão. A gente por aqui (claro!), vibrava como se esses números fossem resultado da Tele Sena!

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O sucesso profissional e pessoal, entretanto, é fruto de muita luta e dedicação. Gabi perdeu o pai em um acidente de carro aos seis anos de idade. Foi criada pela mãe e pelas avós e nunca teve nada de mão beijada. Daí cresceu com ela uma força que parece ser inabalável. Tanto, que sustentou seus valores e lugar de privilégio adquiridos mais tarde quando a vida lhe exigiu tal posição: pediu demissão do cargo que ocupava há pouco tempo e que foi motivo de grande parte do seu sucesso nas redes sociais. Competente que só, foi convidada de volta pela emissora, dessa vez para criar o seu próprio programa – ainda sem data de lançamento (U-H-U!).

Feminista assumida, Gabi (os amigos pronunciam Gábi) desmonta o clichê de que para uma mulher gostar e entender de política, é preciso ser sisuda. Fora das telas e das suas próprias redes de comunicação (ela também tem um canal no YouTube), a advogada adora se informar e consumir moda e beleza, pretende criar um clube do livro e não dispensa uma boa balada – nada incomum para quem é casada um DJ famoso, Thiago Mansur, e vive colada na amiga Anitta (apenas).

Sempre com o astral lá em cima, não hesitou ao dizer sim para o convite de ser fotografada para este editorial à distância, sem ajuda de uma equipe in loco - e, mesmo nunca tendo modelado e quando a internet não ajudava no processo, tirou de letra. Ok, isso não é nenhuma grande questão para quem e se diz a pessoa mais corajosa e medrosa do mundo.

Nesta entrevista – que também concedeu à distância sempre com o mesmo tom de voz doce e pedindo ajuda ao marido para lembrar de passagens da vida – ela joga a real sobre assuntos polêmicos e fala sobre os planos para o futuro.

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Garotas Estúpidas: Qual é a sua formação? Em que momento da vida percebeu que queria fazer isso da vida? 

Gabriela Prioli: Eu sou advogada, me formei na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, e depois fiz mestrado na USP em Direito Penal. Eu sempre fui uma pessoa muito preocupada com a questão da justiça. Desde sempre gostava de discutir esses assuntos e me fazer respeitada pelo meu ponto de vista. Sempre me coloquei para defender as pessoas que tinham dificuldade de falar em sua própria defesa e, por isso, me diziam que eu seria uma boa advogada.

Acredito que comecei a me interessar primeiro pelo Direito Penal, que foi o que me levou para o Direito como um todo. Pela minha história de vida, percebi que as pessoas são tratadas de maneiras distintas e que a força repressiva do Estado atua de determinada maneira em relação a pessoas em diferentes condições socioeconômicas e de raças e isso me incomodava. No segundo colegial eu cursei uma matéria eletiva que chamava Psicologia Social e foi aí que comecei a me interessar cada vez mais por assuntos que têm relação com a criminologia. Assim fui parar no Direito.

Garotas Estúpidas: Já pensou em exercer outra profissão? Qual?

Gabriela Prioli: Na época do vestibular eu prestei Direito e Jornalismo. Acabei fazendo o primeiro, mas nunca abandonei a ideia de comunicar. Eu gosto muito de compartilhar aquilo que aprendo, fico feliz fazendo isso. Foi um caminho que se desenvolveu aos pouquinhos, mas se desenvolveu de maneira natural e estou aqui hoje exercendo os dois mundos.

Garotas Estúpidas: Quem são suas mentoras e mentores? Para quem pede conselhos quando bate a dúvida?

Gabriela Prioli: Eu tenho a sorte de ter muitos bons amigos que me ajudam. Mas, com certeza, o Thiago (Mansur), que está comigo sempre e me ajuda em tudo o que eu decido. A Anitta e a Camila (Coutinho), que, me ajudou demais. Além da minha mãe, claro, que é a minha melhor amiga em todos os aspectos.

Garotas Estúpidas: Como você começou a trabalhar na CNN? Como foi o convite?

Gabriela Prioli: Depois de ler a dissertação “A influência da repressão penal sobre o usuário de crack na busca por tratamento”, que defendi no mestrado que fiz na USP, Leandro Cipoloni, até então diretor de gestão de jornalismo da Record, me convidou para algumas vezes para participar de debates na emissora. Participei de alguns, ele gostou do meu trabalho e me ofereceu um cargo fixo. Na época não aceitei, mas acabamos ficando amigos e, quando ele virou vice-presidente de jornalismo na CNN, me convidou para assumir a bancada de O Grande Debate e eu fui.

Garotas Estúpidas: O que te motivou a tomar novos rumos na carreira e aceitar um convite para trabalhar na TV como jornalista? O que esperava dessa mudança?

Gabriela Prioli: O que me motivou a aceitar o convite foi pensar que eu teria mais espaço para compartilhar o que eu considero ser um conteúdo de qualidade. Tanto que a minha maior preocupação durante todo esse tempo e algo que eu sempre faço questão de explicitar é que eu me preparo, seja para o debate, seja para uma fala sozinha de análise, seja para um vídeo que eu faço nas redes sociais... Tudo isso é fruto de dedicação e preparo porque eu tenho muita responsabilidade com o que eu entrego. Eu não quero a visibilidade pela visibilidade, eu quero a chance de estabelecer com as pessoas uma relação de confiança para que elas se sintam totalmente confortável com aquilo que eu transmito. Até porque eu não acredito muito nessa coisa de ser um oráculo, nem ter um dom especial, não é assim que eu quero me posicionar. Eu acho que eu trago para as pessoas uma análise, que é fruto da avaliação das fontes de informação disponíveis, do meu repertório, mas que é plenamente passível de ser repensado pelas pessoas que consomem. Sei que nem todo mundo tem tempo para ler os artigos e livros que eu leio, afinal não trabalham com isso. Penso que a relação é o interlocutor confiar em mim e eu olhar para ele e transmitir informação de qualidade. E, é claro que se as pessoas quiserem fazer críticas, a gente vai construindo novos diálogos e evoluindo juntos a partir daí. O que a TV e as redes sociais me dão é justamente isso: a possibilidade de trocar com as pessoas.

Garotas Estúpidas: Trabalhar ao vivo sempre traz uma tensão extra, especialmente quando tratamos de notícias tão importantes e impassíveis de erros. Como foi começar nesse mundo? Quais mudanças você percebe desde o seu início até hoje? 

Gabriela Prioli: Apesar de eu ter costume de falar em público, o estúdio de uma redação de jornalismo ao vivo é muito diferente do ambiente de advocacia que eu estou acostumada. Em uma sustentação oral, eu tenho 15 minutos diretos para falar, na TV é uma fala mais dividida. No começo eu ficava muito nervosa e achava engraçado porque as pessoas diziam que eu parecia estar calma. Foi como todo o processo de começar algo novo. Sei que muita gente tem dificuldade de falar em público e não fala por causa disso, então queria dizer que eu também tenho. Hoje melhorou bastante, mas ainda fico tensa.

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Garotas Estúpidas: Você teve uma indisposição com seus colegas de trabalho porque eles te interromperam, desconsideraram sua opinião em um programa que propunha debate e tiveram um posicionamento machista. Ao mesmo tempo, você tem em casa um parceiro que te apoia e foi bastante firme nesse momento difícil. Qual você acha que é o papel da masculinidade no novo mundo com cada vez mais liderança feminina?

Gabriela Prioli: Eu acho que todo mundo, homens e mulheres, têm que se conscientizar em relação aos novos papéis que as mulheres estão assumindo e isso também é fruto de reflexão. A gente tem que sempre refletir sobre os nossos comportamentos e ver como podemos nos aprimorar.

O Thiago (Mansur) é realmente um grande parceiro e é uma pessoa que está e esteve ao meu lado em todos os meus projetos, que acredita em mim inquestionavelmente, que é o meu maior entusiasta. Eu acho que a maneira como ele lida muito bem com o meu protagonismo tem muito a ver com o fato de ele ter sido criado por uma mulher protagonista. O Thiago perdeu o pai quando tinha seis meses de idade e a sua mãe é uma mulher muito forte. Ele tem essa figura como centro do universo. Esse também foi o meu caso e do meu irmão, que fomos criados pela minha mãe.

Acho que o nosso comportamento em relação ao protagonismo feminino deve ser uma avaliação constante, só assim podemos entender de que maneira podemos melhorar o mundo ao nosso redor. É evolução, sempre.

Garotas Estúpidas: Por que decidiu voltar para a CNN e aceitar a proposta de um novo programa depois do acontecido?

Gabriela Prioli: Eu não acredito que as coisas são definitivas. Acho que a crítica deve servir como um ensejo para a gente construir a partir dela e não como uma estratégia de aniquilação. Acredito numa construção consciente a partir de uma reflexão gerada pela crítica e é isso que eu estou tentando fazer: construir algo melhor que tenha a minha cara, em que eu acredito, a partir da crítica. Por isso aceitei voltar para a CNN.

Garotas Estúpidas: Além do episódio machista em si, você ainda precisou lidar com haters nas redes sociais e até ameaças de morte. Como você passou por isso? O que fez para continuar firme e forte? 

Gabriela Prioli: Algo que eu aprendi e me ajuda muito é sempre lembrar que eu só sou responsável pelo que eu faço, só tenho controle das minhas ações. E aí vem uma necessidade de me desensibilizar em relação ao que vem das redes sociais porque as pessoas se escondem por trás dos perfis. Muita gente que adota um tom agressivo para chamar a atenção; tem que, de fato, é agressivo, mas está escondido. A gente tem que tomar cuidado apenas para não se tornar vítima e nem refém do elogio. Nesses momentos eu sempre volto para o que eu acredito.

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Garotas Estúpidas: Você chorou em algum momento? O que sentiu exatamente? 

Gabriela Prioli: Chorei, sim. Chorei durante esse período de muita novidade e turbulência. Não chorei um choro apenas de tristeza, mas de cansaço. Me entristece ver que as pessoas estão cultivando um ambiente de ódio na internet - mesmo em episódios que não me dizem respeito. A disseminação de sentimentos ruins faz mal não apenas para quem recebe a mensagem, mas para quem propaga. Uma pessoa que entra na internet para agredir outra pessoa não está bem e isso me deixa triste. Nenhum comentário isolado nas minhas redes me fez chorar, mas a falta de empatia. É uma obviedade, mas, por trás de todo perfil existe um ser humano. A gente nunca sabe pelo que os outros estão passando, não custa ser gentil.

 

Garotas Estúpidas: Por causa dos últimos acontecimentos, sua vida virou de cabeça para baixo e você virou celebridade e a fada sensata do Brasil em quinze dias. Como foi isso para você? Esperava que fosse acontecer em algum momento? 

Gabriela Prioli: Então, virar a fada sensata né... eu fico feliz que as pessoas me vejam dessa maneira, mas o que eu gosto de reforçar sempre é que o meu trabalho é fruto de dedicação, estudo e responsabilidade. Eu não esperava que a resposta das pessoas seria assim. Fico feliz com o reconhecimento e confesso que acho um pouco aflitivo às vezes com a quantidade de pessoas que me seguem. Eu sempre tive uma relação muito próxima com as pessoas que me acompanham, por exemplo. E ultimamente tem sido mais difícil responder com rapidez a todo mundo. Mas, como quero manter essa proximidade, hoje já tenho ajuda com a moderação dos comentários - até porque nem sempre são comentários bons e acho um desgaste de energia ler os maldosos (que são poucos), por exemplo. Mas, foi uma surpresa. É estranho, mas é muito legal. É um reflexo do meu trabalho e penso que, por essa ser a resposta, devo estar fazendo um trabalho legal, então fico satisfeita com isso. Mas, eu estou em constante evolução.

Garotas Estúpidas: Por que você acha que seu sucesso foi tão certeiro e sua aceitação tão grande?

Gabriela Prioli: Olha, não sei dizer porque foi tão certeiro. Não consigo fazer essa avaliação como especialista em redes sociais, por exemplo. Mas, o que eu acho é que eu sempre me comunico com muita honestidade, eu sou muito transparente na comunicação. Acho que isso é bom e as pessoas percebem. Hoje em dia é nossa obrigação falar sempre a verdade.

Garotas Estúpidas: Você é uma mulher linda, loira e de olhos azuis. Está totalmente dentro dos padrões de beleza impostos pela sociedade. Muitas vezes mulheres assim são tidas como incompetentes e apenas bonitas em ambientes de trabalho - especialmente quando é majoritariamente masculino, como o seu. Em algum momento isso foi um empecilho na sua carreira? Já sentiu algum preconceito nesse sentido?

Gabriela Prioli: Eu acho que a beleza é um conceito relativo. É um clichê, mas a beleza está nos olhos de quem vê. Existe um padrão, mas isso não significa que são só bonitas as pessoas que seguem ou estão dentro desse padrão. O que eu acho que já foi um empecilho para mim, na verdade, é a questão da vaidade e da multiplicidade dos gostos, das diferentes formas de manifestação da minha personalidade. Gosto muito de estudar e me aprofundar sobre os temas que avalio serem importantes. Eu gosto muito de literatura, mas também de maquiagem. Eu sou uma pessoa vaidosa e isso já foi usado pelas pessoas para tentar tirar a minha credibilidade. Quando eu comecei na advocacia lembro que as pessoas me diziam para prender o cabelo, usar óculos, tomar cuidado com as roupas que eu escolhia porque poderiam me acusar de ser uma pessoa fútil e de não ser tão boa. Sempre gosto de comunicar com muita ênfase todas as facetas da minha personalidade porque a gente precisa quebrar esse paradigma de que precisamos nos colocar numa caixinha da expectativa dos outros ou do padrão. Eu posso ser uma pessoa dedicada, responsável, comprometida com o meu trabalho e, ao mesmo tempo, gostar de moda, ser vaidosa e fazer coisas diferentes na minha vida pessoa. É importante a gente insistir em comunicar isso porque abre espaço para que as pessoas possam ser múltiplas sem serem julgadas. Eu faço questão de não me submeter a essa expectativa do mundo, da cobrança para que eu me encaixe em um padrão. É importante mostrar que a gente não precisa se encaixar no padrão.

Garotas Estúpidas: Você acha que as mulheres ainda precisam se provar boas profissionais para serem reconhecidas como os homens?

Gabriela Prioli: Depende, nem sempre. Mas, às vezes a mulher tem que passar por cima de muitas cobranças relacionadas ao seu comportamento. O seu posicionamento no mundo pode ser recebido de formas diferentes por pessoas diferentes. Se você é muito forte, pode ser vista como agressiva. Se é muito vaidosa, como fútil. Esses julgamentos são mais intensos em relação as mulheres. O que eu acho pior de tudo é que muitos dos nossos traços de personalidade são usados como estratégia para nos descredibilizar.

Garotas Estúpidas: Você é feminista? Como foi se descobrir feminista? 

Gabriela Prioli: Sim, sou feminista. Me descobrir como uma foi muito natural. Eu entendo o feminismo como uma busca pela equidade entre homens e mulheres. Minha família é repleta de mulheres fortes - minha bisavó já trabalhava fora de casa, a minha avó materna era cantora lírica. Minha mãe ficou viúva quando eu tinha seis anos e sempre me disse que eu posso falar o que eu quiser para quem eu quiser, a única coisa que eu não posso é desrespeitar os outros.

Garotas Estúpidas: Qual foi o melhor conselho que uma mulher te deu? 

Gabriela Prioli: Na verdade não foi um conselho de apenas uma mulher, mas uma união de vários conselhos: se aproprie da sua história, de quem você é, é aí que está a sua força. Não apenas do que é bom, mas do seu ser como um todo. É assim que você se torna menos suscetível ao questionamento dos outros. É também o conselho que eu dou para todo mundo.

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Garotas Estúpidas: Você prega a descriminalização do uso das drogas e tem, inclusive, teses publicadas sobre o assunto. Você já usou algum tipo de droga? Qual? Como foi a experiência? 

Gabriela Prioli: Nunca usei nada além de álcool. No começo da faculdade tive uma postura bem menos liberal em relação às drogas. Conclui parte do meu curso de Direito em Portugal, na Universidade do Porto, numa época em que estava sendo discutida a descriminalização do uso de drogas e isso começou a abrir minha cabeça. Fiz um trabalho no final da faculdade sobre drogas sintéticas e comecei a me interessar mais por esse tema.

Garotas Estúpidas: Você gosta de moda? Qual considera ser o seu estilo? Tem alguma peça de estimação? 

Gabriela Prioli: Gosto. Me considero uma pessoa básica, mas que se interessa por moda e gosta de acompanhar tendências. Não tenho nada muito de estimação, mas adoro sapatos! Sempre gostei. Quando eu era criança, a minha brincadeira preferida era dar a volta no quarteirão vestindo as roupas da minha mãe. Lembro especificamente de uma bota de franjas maravilhosa. Eu colocava aquela bota e me sentia invencível.

Acho que a roupa e a moda fazem parte da construção da imagem que queremos passar. Elas dão segurança para enfrentarmos algumas situações.

Garotas Estúpidas: E de beleza? 

Gabriela Prioli: Eu gosto de maquiagem, mas nada muito pesado. Adoro conhecer novidades e experimentar. Mas, tanto na moda como na beleza, gosto de ser livre para me arrumar quando eu quiser e sair de cara lavada e sem nenhuma produção especial quando eu quiser também. Não pretendo estar arrumada sempre que sair de casa.

Garotas Estúpidas: O que você gosta de fazer quando ninguém está olhando? 

Gabriela Prioli: Ouvir pagode dos anos 90 e dançar na sala. Faço quando as pessoas estão olhando também (risos).

Garotas Estúpidas: Você pretende ter filhos? Como se sente em relação a cobrança da maternidade imposta pela sociedade? 

Gabriela Prioli: Pretendo ter ou adotar. Já senti essa pressão, sim, e me sinto em relação a ela da mesma forma que me sinto em relação a qualquer cobrança. Acredito que cada pessoa deve decidir o que quer da sua vida e deixar o outro decidir sobre a sua. Cada um no seu espaço de liberdade.

Garotas Estúpidas: Você é casada há quanto tempo? Como se conheceram? 

Gabriela Prioli: Não nos casamos oficialmente ainda, mas moramos juntos há quatro anos. Eu e o Thiago (Mansur, DJ de 36 anos) nos conhecemos na academia. Começamos a namorar depois de um mês saindo e fomos morar juntos dali duas semanas. Ele é o homem mais lindo que eu conheço.

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Garotas Estúpidas: Você já sofreu por amor? 

Gabriela Prioli: Já. Qualquer amor? O meu maior sofrimento por amor é não ter convivido mais tempo com o meu pai. A saudade que eu tenho dele é o maior sofrimento por amor que eu já conheci.

Sobre relacionamentos, sofri mais pelos que não eram saudáveis. Como a maioria das mulheres que eu conheço, já estive em um relacionamento abusivo e foi difícil sair dele. Um grande problema é que a gente costuma dizer que relacionamentos são difíceis, que conviver não é fácil e, quando eu estava num relacionamento abusivo, isso me deixava muito confusa. Eu via que o que eu estava vivendo não era bom, mas eu pensava “será que essa não é a coisa que todo mundo fala?”. Então, agora que encontrei um relacionamento saudável, faço questão de dizer o quanto ele é bom para desconstruir isso

Acho que aqui cabe um conselho: se você acha que tem algo errado no seu relacionamento, busque ajuda, converse com as pessoas, procure sempre se fortalecer buscando quem você é. O relacionamento abusivo vai te desconstruindo e te fragilizando aos poucos e, no final, é difícil se lembrar de quem se era antes dele.

Eu não tive só um relacionamento abusivo. Precisei de algum tempo para entender que, na verdade, eu buscava esse padrão, me colocava neles. Tive que amadurecer para sair disso.

Então, se você acha que está vivendo um, não tenha vergonha de falar. Todas as pessoas estão tentando viver da melhor maneira possível, assim como você.

Garotas Estúpidas: Pelo que acompanho do seu Instagram você é uma pessoa bastante ativa, que adora viajar. Como está sendo esse momento de isolamento social para você? Como tem passado os seus dias? Aprendeu algo novo? 

Gabriela Prioli: Eu sou muito ativa, mas também gosto muito de ficar em casa. Meu isolamento está coincidindo com uma mudança muito grande na minha vida, então tenho muita coisa pra fazer. Não sinto tanto a falta de fazer coisas, mas mais saudades da minha mãe, do meu irmão, das pessoas que eu não posso abraçar e beijar.

Garotas Estúpidas: E depois? Quais são os próximos passos de Gabi Prioli? 

Gabriela Prioli: Olha, eu tenho vários projetos. Eu quero investir no meu canal no YouTube, nas minhas plataformas e redes sociais para manter esse contato direto e constante com as pessoas que me acompanham. Estou trabalhando em um novo projeto para a CNN. Também em um outro projeto pelo qual tenho muito carinho e queria colocar de pé o mais rápido possível porque todo mundo me pede. É um tema que as pessoas gostam muito de dividir comigo, que é um clube do livro – as pessoas sempre me pedem dica de leitura, elas gostam quando eu falo de livro no meu canal no YouTube. Além disso, eu gostaria de dar cursos porque eu sou professora né... Mas, é tudo embrionário porque tudo tem o meu controle e, por isso, preciso desenvolver as coisas com calma, assim não assumo mais projetos do que consigo tocar e nada perde a qualidade.

 

Entrevista: @oliviaanicoletti

Edição: @rafaelnasc e @nelizedezzen

Fotos: @joaoarraes

Beleza: @kaká.oliveira

QUEM ESCREVE
Nelize Dezzen
| Team GE
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Uma outra Mari

20/12/19 Moda | Por Isabela Serafim

Aos 38 anos, Mariana Ximenes diz nunca ter aproveitado tanto a vida quanto agora. Depois de um ano cheio de mudanças e transformações, ela divide suas paixões e a alegria de viver que a maturidade trouxe

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Antes de me contar sua paixão por música, Mariana Ximenes já tinha respondido umas três perguntas citando frases de Caetano Veloso e Cartola. Depois disse que a amizade é o sal da vida. Mas essa é de Jorge Amado, ela mesma pontuou. Seu refúgio, a natureza, combina mesmo com seu mapa astral – sol e ascendente em touro, lua em capricórnio. É muito elemento terra. Pé no chão. Por isso, todas as mudanças de 2019 vieram como um chacoalhão na vida da atriz de 38 anos. Uma transformação necessária, de acordo com ela, que se prepara para viver a Condessa de Barral na novela "Tempos do Imperador", na Rede Globo, no próximo ano. A seguir, ela fala de carreira, redes sociais, maturidade e divide suas paixões (claro!) com a gente.

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Garotas Estúpidas: Fazendo um balanço do seu ano, quais foram os maiores aprendizados?
Mariana Ximenes: Foi um ano de mudanças, muito agitado e interessante. No trabalho, fiz filme, minissérie. Me mudei para São Paulo, fiz viagens incríveis. Esse foi um tempo de valorização dos meus laços. Sou muito atenta às amizades e estive cercada de amigos e afetos, foi especial. Aprendi a ter ainda mais paciência, tolerância e a entender que as mudanças são bem-vindas. Não foi fácil, mas foi muito bom.

GE: Você tem anos de experiência como atriz. Tem alguma coisa que ainda não fez e quer experimentar?
Mariana Ximenes: Tudo, rs! Tem muuuita coisa pra fazer ainda. Fiz uma comédia no ano passado que vai estrear em 2020 que chama "L.O.C.A. – Liga das Obsessivas Compulsivas por Amor" e foi o máximo. A peça "Os Altruístas", de 2011, tem uma veia cômica e foi bem emblemática. Queria fazer mais comédia, acho uma delícia. Ah, tem textos clássicos que também amo, pessoas com as quais tenho muita vontade de trabalhar…

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GE: No Festival do Rio, você usou um vestido com cartazes de filmes nacionais como manifesto e virou notícia. O que achou da repercussão?
Mariana Ximenes: Não imaginava que ia ter esse alcance e fiquei muito contente. Eu tive a ideia, falei com o Thomaz Azulay, da marca The Paradise, e fizemos tudo na loucura para vestir poucos dias depois. Foi uma delícia revisitar esses filmes, fazer a curadoria do que iria aparecer no vestido ao lado dele. Tinha acabado de rolar o caso da Ancine [A Agência Nacional do Cinema retirou cartazes de filmes brasileiros de sua sede e do site], estamos vivendo um momento complicado para a cultura agora. Fala-se que o artista se beneficia dos recursos do governo e não é verdade. O próprio Festival do Rio, que aconteceu com financiamento coletivo, foi um sinônimo de resistência. Acho que agora é a hora de nos unirmos. Quem acredita nas mesmas coisas precisa estar junto, reforçando o coletivo.

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GE: O que mais te engaja verdadeiramente?
Mariana Ximenes: Estudei muito o feminismo e o feminino. Gosto de falar do feminino também. Tenho um grupo em que debatemos muito o assunto, participamos de aulas e isso sempre me nutriu. Adoro ler Sueli Carneiro, Djamila, Angela Davis. É importante pra mim estar em rodas de mulheres com recortes diferentes. Além disso, me engajei bastante na tragédia ambiental da cidade de Mariana, em Minas Gerais [o rompimento de uma barragem soterrou a cidade e seus arredores de lama em 2015]. Fui até lá, gravamos a campanha "Não esqueça Mariana", que ganhou até prêmio. Ah, também colaboro com projetos bacanas, como a Casa Spectaculu, da Marisa Orth e do cenógrafo Gringo Cardia.

GE: E quais são as suas maiores paixões?
Mariana Ximenes: Ah! Tanta coisa! Eu amo música, comida, arte. E natureza, então? Tudo de natureza. Mar, areia, cachoeira. Amo mergulhar. É só me chamar que eu vou. Ficar no meio do mato é o que me faz mais feliz!

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GE: Falando em paixão...Como tá esse coração?
Mariana Ximenes
: Muito bem, muito feliz. Estou namorando há 2 anos o músico Felipe Fernandes. Sou um pouco mais discreta em relação à vida amorosa, gosto de me reservar e viver os momentos.

GE: O que a Mariana de 38 anos gostaria de contar pra Mariana de 20?
Mariana Ximenes: Acho que eu falaria: "Vai lá, garota! Aproveita muito a vida como eu aproveito hoje! E baixa a ansiedade, porque como o Cartola canta 'Tudo no mundo, acontece'".

GE: Como você lida com o envelhecimento?
Mariana Ximenes: Tudo é diferente. O tempo passa e tem uma ação. Não tem jeito. Quando eu penso no tempo, lembro da música "Oração ao Tempo", do Caetano. Ele fala "Compositor de destinos [...] Entro num acordo contigo [...] E o movimento preciso". Gosto de pensar no tempo e no movimento. Quando eu olho pra Fernanda Montenegro, por exemplo, vejo que o tempo está nas escolhas dela, no corpo, no movimento. A Jane Fonda deu uma entrevista que me deixou comovida uma vez. Ela disse que não queria deixar a vida dela sem uma luta, sem um sentido. Ela tem uma força que só o tempo traz. Acho que é isso: o tempo traz força. Quando olho pra trás, lembro da minha bagagem, da minha trajetória, da minha família, das pessoas que amo. Isso me traz paz.

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GE: Seu perfil no Instagram tem 4 milhões de seguidores. Como é sua relação com as redes sociais?
Mariana Ximenes: Tento fazer um trabalho comigo mesma sempre. À noite, quando deito na cama, evito pegar o celular. Se esqueço, até o meu namorado coloca o meu aparelho longe da cabeceira. Virou a nossa regra: deitou, não mexe mais no celular. Hoje em dia eu nem tenho mais computador, tenho celular. Eu não sou daquelas que fica reportando tudo o que faço no Instagram, mas mesmo assim uso bastante. Para eu estar inteira, preciso estar focada. Se eu estivesse fazendo essa entrevista pessoalmente [falamos com a atriz ao telefone], eu teria desligado o celular e estaria olhando nos seus olhos. Tenho que estar absolutamente entregue e me dedico a fazer isso. É claro que adoro ter uma conexão próxima com meus fãs e seguidores, mas precisamos usar com parcimônia. É bom viver a vida real.

GE: Você tem metas para o ano que vem?
Mariana Ximenes: Prefiro falar em propósito. E adoro escrevê-los. O papel ainda tem o seu valor pra mim. Gosto de conhecer letras das pessoas, sou uma pessoa que manda cartão. Sobre as metas de 2020: ainda não pensei. Aliás, não sei nem onde vou passar o réveillon. Sempre vou pra Bahia ou pra Alagoas. Ou talvez eu vá para uma fazenda perto do Rio, que tem cachoeira.

GE: O que você acha que está faltando no mundo?
Mariana Ximenes: Precisamos de mais tolerância, de respeito. Olhar paro outro, se colocar no lugar do outro.

As paixões de Mariana, em lista

Música
Para dirigir: "AmarElo" - Emicida (Sample: Belchior - Sujeito de Sorte) part. Majur e Pabllo Vittar misturando Nirvana e Jorge Ben;
Para namorar: Chet Baker;
Para ouvir no parque: "In a sentimental mood" - Ella Fitzgerald;
Para cozinhar: todas as músicas do Gilberto Gil, que eu amo!;
Para dançar: Baiana System, Anitta, Queen, David Bowie;
Trilha sonora de filme: "O fabuloso destino de Amélie Poulain"  e de “Me chame pelo seu nome” porque adoro as músicas do Sufjan Stevens.
Show: Ofertório, da família Veloso, e da Maria Bethânia.
Clipe: os do Spike Jonze. E o clipe de "Sua Cara".
Livro
Cabeceira: "Mutações", da Liv Ullman;
Biografía: "Ritos do Nascer ao Parir", Mana Bernardes.
Obra de arte: o Pavilhão da Adriana Varejão, o novo do Tunga, da Claudia Andújar e o do Helio Oiticica, em Inhotim.
Filme
Clássico: "Oito e Meio", Federico Fellini;
Pop: "Pulp Fiction", Quentin Tarantino;
Brasileiro: "Central do Brasil", Walter Salles;
Contemporâneo: "A vida invisível", de Karin Ainouz.
Teatro: as peças do Felipe Irsh e também amo ir ao Teatro Oficina assistir ao Zé Celso.
Dança: o espetáculo "Fúria", de Lia Rodrigues. A Pina Bauch e a nossa Angel Vianna.
Maquiagem: ADORO delineador! A Nat Billio, que fez a nossa matéria, é uma craque!
Batom: vermelho, sempre.
Viagem: Alter do Chão, no Pará.
Praia: Praia do Sancho, em Fernando de Noronha.
Cachoeira: todas da Chapada dos Veadeiros.
Comida: Nasi Goren, que experimentei em Bali, e da chef Morena Leite, que faz lindamente aqui no Brasil. Também amo feijoada!
Doce: Brigadeiro.

Fotos: Tauana Sofia
Maquiagem: Nathalie Billio
Cabelo: Welida Souza
Styling: Júlia Feil
Diagramação: Amanda Pinho
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Isabela Serafim
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A revolução de 2019: entenda por que este foi um ano de mudanças

18/12/19 Lifestyle | Por Isabela Serafim
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Novas configurações pessoais, climáticas, sustentáveis e digitais marcaram um período de renovação geral. Confira o nosso tour a seguir 

 

Tudo começou no shooting da capa da nossa primeira edição digital com Alice Wegmann, quando a própria atriz falou sobre a "revolução de 2019" – as grandes mudanças na forma como as mulheres estão lidando com a autoestima. Achamos que fazia tanto sentido que resolvemos usar o tema e pensar sobre o que mais se transformou este ano. E foi coisa, hein? A seguir, faremos um tour por onde passou a tal revolução de 2019. Vem com a gente?

Captura de Tela 2019-12-18 às 18.00.08
Ashley Graham, uma das musas do movimento body positive
Instagram/Reprodução
Captura de Tela 2019-12-18 às 17.08.59
Instagram/Reprodução

AMOR-PRÓPRIO, O PRIMEIRO AMOR

Nunca se falou tanto sobre autocuidado como em 2019. Tanto que o próprio Google apontou uma curva crescente nas buscas pelo termo em sua plataforma ao longo do ano. O movimento de olhar, entender e cuidar de si é a consequência de uma onda de feminismo que se espalhou pelas redes sociais. E o resultado é mesmo uma legião de mulheres que embarcaram em libertadoras (e nada fáceis) jornadas de aceitação e autoestima.

 

"É um processo de cura muito sensível, com altos e baixos. Vivemos hoje em um mundo com muitos filtros. Precisamos nos conectar com nossa essência e ser mais gentis com a gente", conta a comunicadora carioca Lara D'Avila, criadora do perfil do insta @comoaprendiameamar. "Depois de me aprofundar no assunto e ler 'O Mito da Beleza', de Naomi Wolf, percebi quanto tempo gastava com essa falta de aceitação. Hoje, aprendi a me amar com minhas imperfeições e adoro cuidar da minha saúde", diz.

Graças às redes sociais, inclusive, o movimento tem se espalhado cada vez mais, e celebridades que influenciam milhões de pessoas nas redes sociais têm se posicionado e colocado o assunto sempre na roda. Tipo Bruna Marquezine, Preta Gil, Anitta e a própria Alice Wegmann, que puxou o bonde da conversa aqui no GE no último mês (obrigada por isso, Alice!).

07 July 2019, Berlin: A woman is holding her smartphone in her hands during the show of the label LeGer by Lena Gercke at About You Fashion Week at E-Werk. The collections for Spring/Summer 2020 will be presented at Berlin Fashion Week. Photo: Jens Kalaene/dpa-Zentralbild/ZB (Photo by Jens Kalaene/picture alliance via Getty Images)
Getty Images

O DESEJO DO OFF

Para a nossa supercolunista Gabriela Prioli, esse foi um período marcado pelo impacto da tecnologia em nossas vidas. E não é só em relação às facilidades que os aplicativos trouxeram, mas também sobre as consequências deles para quem tem o costume de estar sempre conectado. "Nós somos o País com os maiores índices de ansiedade e depressão da América Latina, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS)", conta Gabi. E olha só: ocupamos a segunda posição no ranking de países que mais usam o Instagram. "Temos milhares de pessoas se comparando com fotos nas redes sociais – que na maioria das vezes nem são reais", completa.

Nesse contexto, tivemos um 2019 em que o sinal vermelho dos efeitos do excesso de redes sociais piscou de verdade. E precisamos falar da importância de se reservar e aproveitar os momentos offline. Nossa Camila Coutinho, que tem uma vida superconectada, conta que é essencial ficar longe do celular para voltar a prestar atenção em si mesma.

Uma das tradicionais filas em lojas da Apple
Getty Images

"Começamos a perceber recentemente a consequência de estar sempre ligada na vida do outro (nas redes sociais) e desligada da nossa. Claro que não dá para ser extremista. Nossa realidade hoje é muito online. Porém, somos seres humanos com controle e inteligência para ter domínio em relação a isso. É importante identificar quando o uso está passando do limite e criar momentos off ao longo do dia. Ter consciência é o primeiro passo."

Members of the IBAMA forest fire brigade (named Prevfogo) fight burning in the Amazon area of rural settlement PDS Nova Fronteira, in the city of Novo Progresso, Para state, northern Brazil, on September 3, 2019. Since the end of August Prevfogo has been acting with the assistance of Brazilian Army military. Bolsonaro government budget cuts since January 2019 have severely affected brigades, which have been reduced in critical regions such as the Amazon. (Photo by Gustavo Basso/NurPhoto via Getty Images)
A Amazônia e o alarmante aumento de queimadas
Getty Images

ALERTA SUSTENTÁVEL 

Não faz muito tempo que sustentabilidade era um tema de nicho, muitas vezes taxado de "papo de hippie". O tempo passou e, rapidamente, falar em meio ambiente virou prioridade. Importante e necessário, porque 2019 encerra uma década de calor global excepcional, perda de gelo e recorde no aumento do nível do mar (!!!), impulsionados pelos gases do efeito estufa que foram lançados através de atividades humanas, de acordo com a  Organização Meteorológica Mundial (OMM).

16-year-old Swedish climate change activist, Greta Thunberg takes part in the Fridays For Future rally in Piazza Castello on December 13, 2019, in Turin, Italy  - Thunberg rose to international prominence last August for organising the first 'School strike for climate', also known as Fridays For Future, a global movement of school students who swap classes for demonstrations to demand action to prevent further global warming and climate change. (Photo by Massimiliano Ferraro/NurPhoto via Getty Images)
A ativista Greta Thunberg, de 16 anos, chamou a atenção em congressos de sustentabilidade em 2019
Getty Images

Fazendo um recorte nacional, a história também se complica. O desmatamento na Amazônia cresceu 30% entre agosto de 2018 e julho de 2019 – os dados são do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Fernanda Simon, diretora executiva do Fashion Revolution, movimento que luta por um mercado de moda mais sustentável, conta que este foi um ano em que ficou comprovado que tratar de sustentabilidade é um caminho sem volta. "Avançamos bastante com o lançamento da segunda edição do Índice de Transparência da Moda Brasil, projeto que analisa 30 das maiores marcas nacionais de acordo com a disponibilização de dados públicos em seus canais. Uma ferramenta para auxiliar quem deseja ter informações de qualidade sobre o assunto", conta – e já deixa a dica para quem quiser se aprofundar no assunto.

Captura de Tela 2019-12-18 às 17.43.42
Instagram/Reprodução

MÍSTICAS DIGITAIS

Se tem uma terra que foi fértil para os influenciadores em 2019 foi a do misticismo. Perfis de bruxas modernas, astrologia e conteúdos exotéricos ganharam todos os holofotes em um ano de muita instabilidade geral. A plataforma Peoplestrology, que usa a astrologia para fazer pesquisas comportamentais, divulgou um estudo que aponta a busca por respostas como motivo para o boom do tema nos últimos anos.

"As novas gerações vivem uma crise generalizada de confiança: uma sensação de que governo, mídia e grandes instituições não estão falando a verdade. A incerteza e instabilidade sobre o futuro e a urgência para acalmar a ansiedade pode ser comum a todos, mas entre os mais jovens, essa angústia é crítica. A necessidade de pausa e reflexão é urgente, nem que isso aconteça online com a sua youtuber astróloga favorita", explica o report.

Captura de Tela 2019-12-18 às 17.38.38
Instagram/Reprodução

Neste contexto, dá pra entender o motivo do tarô virtual voltar à tona em pleno 2019 (não lembra coisa dos primórdios da internet, nos anos 2000?). E a história não para por aí: é reiki, wicca, ayahuasca, sagrado feminino e outras muitas filosofias que têm uma visão menos racional das coisas estão bombando.

Independente de misticismo ou crença, é fato que em 2019 a gente quis mais. Mais sororidade, mais empatia, mais acolhimento, mais relaxamento, mais descanso, mais autoconhecimento, mais paz. Este foi um ano de transformação, em que um espírito de movimento tomou conta de muita gente e o conformismo não teve espaço. A gente aqui no GE mudou de cara, equipe, posicionamento e encerramos o período com muitas novidades – e um longo caminho para percorrer. Vem 2020, que queremos continuar esse papo!

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“A Revolução de 2019”

22/11/19 | Por Nelize Dezzen
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Body Coven, preço sob consulta; camisa Etoiles, R$660; sapato Miu Miu, preço sob consulta

Por Karina Hollo

Logo no início do shooting para essa capa, Alice Wegmann soltou essa
expressão. A atriz se referia à grande mudança na forma como as
mulheres estão lidando com a autoestima. Fato. Logo seguimos num
longo papo sobre o assunto e chegamos à conclusão de que 2019 tem
sido realmente um ano de muitas revoluções. Aqui no GE, estamos em
profunda mudança. Também está rolando uma transformação imensa
no jeito de se comunicar. E até nos relacionamentos, em épocas de
redes sociais. Dessa conversa com ela decidimos, então, que esse seria
o tema dessa edição.

Para começar: A Revolução de Alice

Ela acabou de completar 24 anos e confessa que este foi um dos mais importantes. Parou de encanar tanto com o corpo, conheceu Miguel pelo Instagram, embarcou em causas que achou importantes. E vem muito mais por aí.

“Tem alguém aí 100% satisfeito nesse momento? Impossível.” É assim que a atriz Alice Wegmann, de 24 anos, define o reboliço que é esse fim de 2019. Carioca sangue-bom, ela é uma mulher de sua geração, que não tem papas na língua na hora de falar de feminismo, de lutar contra o preconceito geral, a opressão, a violência, a censura, a pobreza. “Não estou acomodada com o mundo do jeito que está. Então, uso a minha voz para tentar transformá-lo.” Na entrevista a seguir, a atriz, que já foi protagonista de Malhação (em 2012, na pele de uma roqueira rebelde), trabalhou em novelas, longas e minisséries até interpretar a vilã muçulmana Dalila, em Órfãos da Terra, fala abertamente sobre feminismo, sobre como consumir moda de uma maneira mais sustentável, do jeito moderno de namorar, do derramamento de óleo no nordeste. E também sobre a quebra dos padrões de beleza femininos e de quem ainda fala mal da barriga da coleguinha, de como ela engordou. Nada escapa a essa escorpiana de olhos doces e palavras maduras.

GAROTAS ESTÚPIDAS: Como você define o feminismo moderno?
Alice Wegmann: Vejo como um grande movimento de mudança e reestruturação. O feminismo tem como objetivo os direitos equânimes entre as pessoas; e acho que também precisa ser pensado com toda a interseccionalidade. Entre as mulheres, ter nascido branca na zona sul do Rio [de Janeiro] é um privilégio, por exemplo. Acho que realmente precisamos transformar muita coisa no mundo atual. Tem alguém aí 100% satisfeito nesse momento? Impossível.

GE: Como ele evoluiu e como você embarca nele?
AW: Acho que muitas mulheres abriram diversas portas para que eu pudesse ser quem eu sou hoje. Para que eu pudesse ler, escrever, votar, escolher as minhas próprias roupas, enfim. Nos últimos anos, a gente vem falando muito sobre libertação... E acho que foi isso o que aconteceu comigo, fui me libertando do medo de ser quem eu sou. Mas sei que ainda preciso abrir outras portas – para mim mesma e para futuras gerações.

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Top, Amapô, e, short Ellus, preços sob consulta

GE: Você tem uma voz ativa no feminismo contemporâneo. Em que outras causas embarca?
AW: Acho que esse é meu lugar de fala, enquanto mulher. Mas sabe aquela frase “você não precisa ser gay pra lutar contra a homofobia?”. É simples. Abraço as causas contra o preconceito geral, contra a opressão, contra a violência, contra a censura, contra a pobreza. Não estou acomodada com o mundo do jeito que está. Então, uso a minha voz para tentar transformar alguma coisa.

GE: Qual sua relação com a sustentabilidade? Como consome moda?
AW: Eu me ligo muito em moda, super acompanho os desfiles. Tenho meus “guilty pleasures”, mas cada vez com mais consciência das minhas escolhas. Nunca fui de comprar tudo o que via pela frente, sempre apliquei boa parte do meu salário para fazer um pezinho de meia desde quando era criança e trabalhava no teatro... Compro peças que sei que vou usar mais de uma vez, ou que sei que valem muito a pena.

GE: Como cuida da alimentação?
AW: Como carne vermelha pouquíssimas vezes por mês, tipo em duas ou três refeições apenas. Reduzi muito o consumo esse ano, e tenho sentido cada vez menos falta. Assisti a alguns documentários sobre o gado no Brasil e fiquei bastante chocada com o desmatamento e a
poluição que isso produz. Procuro consumir alimentos frescos, uma menor quantidade de industrializados. Uma pena que agora nossas frutas, legumes, verduras tenham tantos agrotóxicos.

GE: Se pronunciou sobre o derramamento de óleo na praia?
AW: Claro que me pronunciei! É infelizmente um ano de muitos desastres no Brasil – teve lama, incêndio, agora isso. E o povo do nordeste tirando o óleo no braço, o governo sem fazer maiores movimentos... uma tristeza.

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Jaqueta, preco sob consulta e short, R$ 259,90, ambos Levi's; biquíni Vix, R$ 259; óculos MiuMiu

GE: Vilã ou mocinha?
AW: Acho que a gente só não quer mais mocinhas passivas, que esperam o príncipe encantado-herói chegar. Queremos protagonistas proativas.
Contanto que tenha isso, tudo bem. Do contrário, as vilãs são mais complexas, né?

GE: Sempre teve uma boa relação com o próprio corpo?
AW: Nem sempre. Aliás, esse ano foi um dos que mais me desapeguei quanto a isso, desde que tenho 15 anos. Terapia e meditação ajudam MUITO! E estar em contato com a natureza e com quem você ama, e se livrar da culpa de comer certas coisas. A culpa é o que mais pesa.

GE: O que o esporte trouxe para sua vida? Disciplina? Determinação?
AW: Sim. Tudo isso. Compromisso, disciplina (treinava ginástica olímpica 7 horas por dia, durante 8 anos da minha vida), força de vontade, superação.

GE: O que é essa tal revolução de 2019 que está fazendo as mulheres aceitarem melhor o próprio corpo?
AW: Acho que há um tempo as pessoas vêm exigindo ver mais verdade nas coisas. E ser mais de verdade também. Isso reflete em tudo, nas marcas/empresas, na forma como a gente se posiciona, em como se apresenta para o mundo. Então é isso: somos assim, não vou ficar me sentindo péssima por isso. “Eles que lutem” (risos).

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GE: Como vê a queda dos padrões de beleza femininos? Há ainda muita luta pela frente?
AW: Sim. Porque não existiu essa queda, de fato. É bonito falar de aceitação, mas muita gente ainda não colocou isso em prática... Seguem falando mal da barriga da coleguinha, de como ela engordou, de como ela tomou aquele sorvete numa tarde de terça... Seguem cultivando a cultura do jejum de sei lá quantas horas. Enfim, tem muito para mudar.

GE: Redes sociais servem para que? Têm um lado bom? E um ruim?
AW: Acho que ao mesmo tempo que aproxima as pessoas, também pode afastar. O negócio é o equilíbrio. Saber a hora que está te consumindo demais... Saber quando se deve deixar o celular de lado pra viver o presente mesmo, sentir o ventinho no rosto, a temperatura da água na praia, entender de fato a piada e não fingir que entendeu enquanto está prestando atenção no feed (risos).

GE: Como foi esse flerte com o Miguel [Gastal] pelas redes? Conto de fadas existe?
AW: O nosso foi total vida real, com papo reto e verdade. Ele estava solteiro, eu também, trocamos uma ideia pelo Instagram, a conversa foi fluindo até que encontrei ele na festa de uma amiga em comum. E desde o primeiro beijo foi um atrás do outro. Ele é incrível, parceiro, companheirão. Falamos sobre qualquer coisa!

GE: Uma musa inspiradora
AW: Fernanda Montenegro. Ela me emociona muito. E minha avó Maria Ignez.

GE: Um livro, um filme, uma série e uma playlist...
AW: Livro: Contos de Cães e Maus Lobos, do Valter Hugo Mãe; Filme: Cafarnaum, de Nadine Labaki; Série: Fleabag; Playlist: Canto do Povo de Um Lugar, de Caetano Veloso, Força Estranha, de Gal Costa, Tempo Rei, de Gilberto Gil.

Fotos: Ivan Erick
Styling: Rita Lazzarotti
Beleza: Nathalie Billio
Produção executiva: WBorn Productions
Produção de moda: Jeff Ferrari, Sanny Elias e Vítor Moreira
Tratamento de imagens: Philipe Mortosa
QUEM ESCREVE
Nelize Dezzen
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LIFESTYLE
CAMILA COUTINHO
Camila Coutinho criou o Garotas Estúpidas, primeiro blog de moda brasileiro, em 2006. De lá pra cá, a recifense virou referência no mercado nacional e internacional: em 2015 integrou a seleção “30 under 30” da Forbes Brasil e em 2017 entrou para a seleta lista BoF500 do site britânico Business of Fashion, que elege as personalidades que estão fazendo a diferença no mundo da moda; no ano seguinte lançou seu primeiro livro, “Estúpida, Eu?”, pela editora Intrínseca
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